Sexta-feira, Fevereiro 17, 2006

As donas dos nossos corações


Relógio no pulso, hora acertada. Passos para cá, para lá, nenhum desejado. Pelo menos apareceram alguns passos conhecidos.

- Você está estranho. O que foi dessa vez?
- Ela.
- Sempre ela, não?
- Eu tenho culpa?
- Lógico que tem. Você que dá bola.
- Nada disso! Eu não tenho culpa de sentir essa tremedeira nas pernas, essa sensação de borboletas esbarrando nas paredes do meu estômago toda vez que a encontro. Ou você realmente acha que eu gosto de me sentir tímido na frente de alguém? Que quero me sentir assim?
- Cara, dá um tempo, né? Vê se não faz tempestade num copo d'água, entendeu muito bem o que eu disse. Você poderia não exagerar tanto, dar menos atenção. Afinal, ela só te pisa porque você faz absolutamente tudo por ela.
- Você tem razão... olha, hoje ela marcou comigo, aqui, nesse lugar. E onde ela está? Nem sombra dela por aqui! Isso aqui é inadmissível, não vou deixar aquela maluca pisar em mim desse jeito!
- Isso, é assim que se fala!
- Nem vou deixar que ela marque nada! Se quiser sair comigo, eu que mando nos horários!
- Boa, você está entendendo o que estou dizendo! É assim mesmo, cara!
- E quando ela quiser colo, eu não dou mais. Afinal, eu tenho que aguentá-la, mas ela nem liga se eu pedir que ela seja um pouco mais carinhosa, pelo menos um tantinho assim!
- Boa, boa garoto!
- E tem mais! Da próxima vez que a vir, eu vou dizer pra ela umas verdades, vou dizer assim...
- Aproveita e diz agora! Ela tá chegando!

- Oi, amor! Oi, Augusto.
- Oi, pensei que não viria mais!
- Oi... olha, vocês vão me desculpar, mas tenho que ir. Fábio, depois volto por aqui.
- Sem problemas, cara. - Despedindo-se do amigo e olhando com cara de raiva para a namorada.
- Amor, me desculpa por não ter aparecido, viu?
- É, né... fiquei esperando, você nem...
- Antes que você diga qualquer besteira, por que não deixa seu celular ligado?
- Celular? O celular! Ele está aqui no meu bolso, mas está ligado... Ah, o maldito celular, desligou sozinho!

Celular religado, três ligações não atendidas e uma nova mensagem. As ligações não-atendidas, todas dela; a mensagem, dela também.

"Amorzinho, estou doida pra te ver. Vou me atrasar, minha mãe precisou de mim. Ao invés de chegar às duas, tenta chegar às quatro, viu? Vamos ao cinema hoje?"

- Então a cara de limão azedo é por causa disso? Nem posso acreditar...
- Mas é que, você me deixou esperando e...
- Sem mas, nem meio mas. Seu insensível! Se você quiser, pode assistir o filme com o Augusto que eu não vou mais com você. E quer saber mais? A gente só sai de novo em dois mil e dez. Isso se você melhorar. E somente se.
- Mas amor, espera! Não, não vai embora!

E quem não tem cão, caça com gato. Ou quase isso, afinal Augusto não fez com Fábio, no cinema, o que Fábio queria fazer com a namorada. Falando em Fábio, este se acertou com a namorada, mas somente duas semanas depois. Pelo menos, naquele dia, assistiu aquele filme de ação que não podia assistir com a namorada, cortesia do amigo Augusto.
- Certo, e agora?
- Agora? Você não me disse que não ia mais atrás dela, que ia deixar de ligar!? Onde está aquela convicção toda?
- Foi embora quando ela foi e levou meu coração. Eu vou atrás dela!
- Mas ainda não passaram nem três horas desde briga! Vai, vai seu capacho! É por isso que eu não sou assim, mulher nenhuma vai me tratar mal, nunca! - disse, bem na hora que seu celular vibrou no bolso.


- Ahn? Ah! Alô? Oi amor! Não, não. Como assim? O que você quer saber? Que horas são? São três e... droga! É, eu sei, estou atrasado, e muito. Não amor, deixa eu explicar. O que? Dois mil e dez? Que conversa feia é essa? Não amor, não faz isso... você sabe que eu te amo, não é? Sabe que eu faço tudo por você! Ô, meu amor, não! Por favor, não desliga... desligou. Droga! E você Fábio? do que você está rindo? Não sou palhaço. Vcê não ia atrás dela agora? Vai, vai!
- "Mulher nenhuma vai me tratar mal, nunca!", um sabio me disse há um certo tempo. Você o conhece?
- Bem, toda regra tem exceções e...
- Sei, sei.
- É verdade... é a mais pura... ah! Quer saber? Mulheres, quem vive sem elas?

Por Mário Oliveira, às 3:15 PM. Comentários:



Sábado, Fevereiro 11, 2006

O palhaço e a prostituta



Ele olha para o teto, pega um cigarro na mesa de cabeceira. O vicio o maltratava, mas a falta de vontade pela vida era o seu mal. Às vezes as coisas não são como queremos que elas sejam.
Sai do quarto, derruba toda a maquiagem.
- Não preciso de aplausos, não preciso de ninguém!
Mente e bate a porta com força, para que ele acredite nas próprias palavras. Não funciona.
- Eu... eu preciso mesmo.
Picadeiro fechado, todos dormindo. O palhaço sai.

O pequeno carro velho lotado de palhaços é o número preferido de todos. Ele sempre foi o diretor daquela cena, todos o adoravam. Até que as suas idéias perderam o prestígio, os aplausos. Foi substituído na direção da esquete por um outro palhaço, mais jovem, mais forte e, principalmente, mais engraçado. Secundário, aos poucos foi esquecido. Não gritavam mais o seu nome.
Parou de vagar e divagar sobre aquele assunto tão incômodo. Tocou a campainha.

Um espelho, uma cômoda, maquiagem completa e perfumes variados, um para cada dia da semana, um velho rito que dava sorte, prosperidade. Ela vê sua imagem refletida no espelho, verifica uma ruga aqui, outra ali. Pergunta a si mesma há quanto tempo é isso, aquela imagem. Quanto tempo ainda seria isso. Cabisbaixa, recebe um sempre como resposta, da sua própria consciência.
- Quanto?
Camisola vermelha de seda, ligas e batom. Sombra, pó, esmalte e perfume da sexta-feira. Prendedores de cabelo, brincos dourados, salto alto e pernas abertas.
- Cinquenta.
- Completo?
- Completo? Para você, meu amor, eu faço por cem. E não adianta pechinchar.

Pinta e borda, tira e põe, dança, ri, chora. Vai e volta, explode tudo, força tudo. Causa graça em todos e disso fica dependente.
E ele, como os tantos outros, vai embora depois.

Ela arruma os lençóis, joga a camisinha no lixo, relaxa o pescoço e o quadril. Senta na beira da cama, olha para cima, enxuga uma lágrima solitária e desabafa:
- Eu também sou um palhaço.


Por Mário Oliveira, às 1:53 AM. Comentários:





Quando já não se sabe o que é realidade ou ilusão. Os dramas e as comédias da minha vida, da vida de outras pessoas, reais ou fictícias. Com o máximo de bom humor e desentedimento. Esta é a toca do desentendido.

A toca é habitada por Mário Oliveira, outrora conhecido como Mad_S nos refúgios subterrâneos do mundo da Internet, mais precisamente na cidade fantasma do IRC. Morador da cidade de Fortaleza, antiga cidade do esgoto, atual cidade da falta do que fazer.

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